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quarta-feira, 3 de março de 2010

Boró no bolso? Nunca mais!



É fato sabido por todos que as diferenças regionais muitas vezes provocam mudanças no vocabulário e a criação ou utilização de gírias ou expressões podem variar de local para local. É aí, amigos da blogosfera, que surgem situações mais que inusitadas...

Estava eu na praia de Boa Viagem tomando um banho de sol, quando resolvi parar no estimado Clube do Anzol para tomar uma água de coco e bater um papo com o ilustríssimo rubro negro Eliel, quando aparecem alguns conhecidos camaradas no local.
Em meio a conversas e brincadeiras, recebo o convite para ir com eles num barzinho, onde rolaria uma boa música e etc...
Sem interesse nenhum em acompanhá-los, agradeci o convite, justificando que havia ido até a praia para tão somente tomar um banho de sol e passar o tempo. Assim foram minhas palavras: "cara, valeu, mas hoje vou ficar por aqui. Saí de casa só para dar uma volta, por isso vim até sem carteira só mesmo com um boró no bolso.
Vi que ficaram um tanta estarrecidos, mas assim que foram embora perguntei ao Eliel se tinha feito algo de errado:
EU - Ei Eliel, será que os caras ficaram bolados. Porra cara, não tava afim mesmo de ir. Tô inclusive sem grana, saí de casa só com um boró no bolso, olha aí, cinco... sete reais!
ELIEL - Mas também rapaz, você foi dizer que tava com o boró no bolso...
EU - Como assim?
ELIEL - Que boró é esse que tais falando?
EU - Aqui ó, esse dinheiro trocado...
ELIEL - Puta que pariu, lascou!
EU - Que foi?
ELIEL - Tá tudo errado Rafa, é que aqui, BORÓ É MACONHA!
EU - Caralho!!! E agora?
ELIEL - Agora deixe que eu explico tudo pra eles, não esquente.
EU - Beleza, te devo quanto?
ELIEL - É dois do coco...
EU - Toma aí, deixa eu ir. Um abraço,
ELIEL - Abraço... escuta aí Rafa!
EU - Oi?
ELIEL - Essa foi foda né?
EU - Porra foi...


E foi mesmo. Depois dessa, boró nunca mais!


רפאל

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Macaco cidadão


O Governo do Estado do Pará anuncia como obra indispensável ao desenvolvimento do Estado o prolongamento da Rodovia dos Trabalhadores (Transmangueirão) através da sua união com a Avenida Júlio Cesar. Consequentemente, esta obra seria executada com prejuízo ao Parque Ecológico do Município, área de 44 hectares localizada entre os conjuntos Bela Vista e Médice.
Os moradores do Bela Vista não poderiam deixar de ficar indignados e insatisfeitos com a empreitada estatal, uma vez que serão os mais afetados com a perda de quase a totalidade de sua área verde. Não há, em nenhum momento, um projeto que leve em consideração a preservação da mata centenária que cerca o conjunto.
Indo mais além, paro para pensar se o Governo é capaz de me responder uma pergunta mais que fundamental: o que nós queremos para Belém? Qual é o projeto urbanístico que hipostaseamos para a cidade?
O que vejo é precipitação e descaso: acredito que os engenheiros encarregados desconheçam que essa área foi criada através do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, e como UC (Unidade de Conservação), tem a proteção de uma lei municipal que istitui e regula o Parque Ecológico do Município de Belém.
A precipitação do Estado é clara e visível: primeiro, em sonhar que sediaria a Copa do Mundo de Futebol em 2014. Descartada a possibilidade, imagino que prejudicar o bem estar e a segurança de famílias e desgastar potencialmente uma área verde por causa somente de um campeonato é uma tremenda incoerência. Sem falar que, óbvio, as grandes seleções jamais jogariam aqui, elas provavelmente iriam para o outro Brasil que fica mais embaixo. Assim, imaginem os possíveis clássicos que perdemos: Rússia x Marrocos, Israel x Trinidad & Tobago, Senegal x Egito...
Nasci e cresci convivendo com essa área verde, escutando o sabiá cantando na hora do café, dando comida aos macacos-de-cheiro, isso sem falar das trilhas e brincadeiras na mata. Acredito que minha dúvida quanto a pertinência dessa obra é contundente. Se tudo se consumar, o que vai restar é isso aí na foto, macaco no asfalto, ou macaco cidadão. Não há indenização que traga de volta a paz que nós vivemos hoje nesse pedacinho de céu que é o Bela Vista.
Com tudo isso o Governo do Estado anuncia que vai plantar um bilhão de árvores. Nada mais justo, pois só aqui no conjunto devem ter derrubado umas 10 milhões!
O que vão fazer do ecossistema local? Isso ninguém se manifesta. O Governo se "compromete" a fazer centro de pesquisa, organizar a visitação ao parque, etc... Lembro que o parque sequer é do Estado, e sim do Município de Belém, portanto, como é que posso entender isso. Ainda mais de um Governo que, sinceramente, até hoje não concluiu nada com competência. É o Governo do projeto, do planejamento. Governo Power Point, isso aí!

Imagino que macacos como esse aí sejam objeto de um projeto de "inclusão social", e que o o Estado vá destinar subsídios para seja possibilitada a preservação de sua "dignidade humana", atraves do exercício da "ação afirmativa" de seus "direitos atávicos de macaco primitivo", combinados com a perspectiva de expansão das garantias sociais dos desfavorecidos.
É, pois esse macaco aí vai ficar sem terra, ou melhor, sem galho. O que fazer? Bolsa-sem-galho pra ele!



רפאל

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

FLAGRANTE: Então é Natal?



"Papai Noel,
velho batuta,
rejeita os miseráveis.
Eu quero matá-lo,
aquele porco capitalista.
Presenteia os ricos,
cospe nos pobres."


Quem não conhece esse clássico do punk rock pode sentir a mesma indignação ao olhar para essa fotografia e perceber a condição do trabalhador em época de festas natalinas. Duvido que algum deles se sinta confortável com esse "discreto" gorrinho de Santa Claus. Já dizia meu amigo Paulo Bassalo: "operário padrão, mesmo que aconteça a todo momento ser chamado de besta". É aviltante o que o a necessidade de sobreviver faz com as pessoas, e como os dentes vorazes do capitalismo utilizam dessa fraqueza para triunfar. O Natal é muito importante para o comerciante, pois para ele não é interessante que o trabalhador faça algo útil com seu 13º salário, e sim, financie os investimentos de sua empresa no ano que está por vir. Daí a necessidade de chamar a atenção do cliente (o famoso AIDA: atenção, interesse, desejo e ação).
Alguns podem achar normal, afinal... é Natal! E daí? O Natal não autoriza ninguém a ceder parte de sua dignidade e a CLT dispõe sobre a moralidade no ambiente de trabalho. Por outro lado, e isso é o que prevalece, existe a liberdade do trabalhador em contratar e encerrar contratos de trabalho. Linhas gerais, se resume no direito de aceitar as condições do trabalho ou ficar desempregado.
Para mim isso é assédio moral. Não posso esquecer que debaixo do uniforme do empregado existe um ser humano que tem desejos e convicções que devem ser respeitados. Ao uniformizar o empregado, amorfizou-se o indivíduo, que já pode ser confundido com uma carteira de trabalho. Um passo a frente e o empregado volta a ser propriedade do senhor feudal que é o seu patrão: fiquei sabendo que o empregado dessa loja aí na foto não pode tirar o gorrinho no seu feudo de trabalho.
O engraçado é que os vendedores não utilizam o referido adorno, somente os caixas. Talvez seja porque o patrão sabe que o cliente não vai querer ser atendido por uma pessoa com um chapeuzinho ridículo desses. Ao mesmo tempo, simbolicamente, os gorros demonstram a conexão entre o capitalismo do Natal e a sua atividade tesoureira. O gorro do Papai Noel, aquele porco capitalista, é agora coercitivamente usado pelos humildes trabalhadores, hienas do capital.
רפאל

FLAGRANTE: aluno pé-de-cana


Observem bem a a imagem acima: não, não é o Sul do Pará ou a Transamazônica. É o Terminal de ônibus localizado no terceiro portão da UFPA, na Perimetral, em Belém. Notem alguns alunos aproveitando a sombra do veículo para se proteger do sol. Parece estranho? Eu explico.
A situação enfrentada pelos discentes e trabalhadores da Universidade Federal que utilizam o transporte coletivo para seu deslocamento é vergonhosa. Com a "reforma" do terminal, metade das acomodações para aguardar o ônibus foram destruídas, sem que houvesse o remanejamento das linhas para o outro lado do terminal (esse que aparece no fundo da fotografia). Conclusão: aqueles que necessitam das linhas que saem do terminal no sentido Perimetral-João Paulo II tem que se submeter a dura rotina de esperar o ônibus praticamente na rua, pegando poeira na cara, e isso sem falar dos riscos outros (acredito que a noite a situação deva ser ainda mais delicada), como assaltos e acidentes.
O curioso que presenciei essa situação na última sexta-feira, porém, fiquei sabendo que o referido já ocorre há um certo tempo. Me surpreende a classe estudantil, através dos DCE's da vida, aceitar uma situação dessas. Não busquei saber, mas acredito que nenhum ofício tenha sido protocolado na PMB.
Concomitantemente, candidatos se revezam na campanha para assumir a reitoria da UFPA. Não sei o nome deles ou quem eles são. Será que não é importante zelar pela incolumidade dos alunos? Será que a campanha se encerra nos terrenos dos Campi?
Lembro quando eu estudava lá e tinha que me submeter a uma rotina massacrante para ir à aula: primeiro, saia de casa e passava um bom tempo esperando um ônibus, até descer na Lomas Valentinas e esperar em torno de 20 minutos junto aos vários colegas que se acumulavam no ponto, para então subir num coletivo lotado rumo à UFPA. Então, quando o o ônibus não era assaltado ou apedrejado, eu chegava na Universidade, mas pelo menos chegava na estação, não no meio da rua. Nesta última sexta-feira, o coletivo estacionou no meio da rua, e quando vi, só havia piçarra e poeira ao meu redor. Pensei que estava numa estrada, mas então vi que não haviam plantações, somente alunos, que mais pareciam pés de cana-de-açúcar na beira da estrada, expostos ao sol e à chuva, comendo poeira e ignorados. Estava em qualquer lugar, isso sim, mas não podia ser numa Universidade, com todo o respeito ao esclarecimento.
É verdade, era uma estrada, estrada do descaso, radial do desespero. É mentira, não eram alunos, eram pés-de-alunos, ou alunos pés-de-cana.
רפאל